• Restaurações de Amálgama – Trocar ou não?

    Restaurações de Amálgama – Trocar ou não?

    Postado por: Dra. Juliana Lemes
    Categoria: Saúde/Bem-estar

    Eu duvido que algum profissional não tenha ouvido esse pedido de algum paciente: “Dr., quero trocar a obturação escura pela clarinha!”

    Mas vale a pena? Quais critérios devem ser levados em consideração para que a troca seja feita? Todo paciente pode?

    Essas são algumas das questões levantadas por esse assunto.
    O amálgama foi o material de escolha por muitos anos, no mundo todo. Trata-se de uma liga metálica, obtida pela mistura de mercúrio com uma limalha que contém prata, estanho e cobre, dentre outros metais, tendo sua composição variada de fabricante para fabricante. Apesar da toxicidade do mercúrio, sua utilização foi muito difundida e é muito comum encontrarmos pacientes com dentes restaurados com esse material. Trata-se de um material que é contido na cavidade dental, nos chamados preparos cavitários, por meio de retenção mecânica. A altura da cavidade, forma das caixas para acondicionamento do material, condensação mecânica da pasta obtida após manipulação e muitos outros passos clínicos precisam ser respeitados para que o material permaneça em posição e obture a cavidade.

    Um dos pontos negativos desse material é a necessidade de criação de um espaço para que ele se acomode e isso envolve o desgaste, muitas vezes, de estruturas dentais sadias e, também, de áreas de reforço dental, como é o caso do rompimento de cristas e pontes de esmaltes para a confecção do preparo cavitário. Outro ponto negativo desse material é a falta de estética, que atualmente não se adéqua às exigências dos pacientes.

    Eu gosto de destacar os pontos positivos desse material. Por ser um metal em meio úmido, o produto gerado por sua “corrosão” no meio bucal (imaginem uma barra de ferro jogada no quintal, que enferruja com o tempo e a umidade) é capaz de proteger as restaurações de processos cariogênicos recidivantes, através de um selamento da interface dente/restauração. Ou seja, essa “ferrugem” que o amálgama produz impede que se formem fendas entre a restauração e o dente, evitando que os ácidos produzidos pelas bactérias cariogênicas desmineralizem tecido sadio.

    Podemos dizer que a durabilidade do material é muito grande e que, tranquilamente, o paciente terá esse material por muitos anos na boca, sem grandes problemas.

    Alguns cuidados precisam ser tomados: polimento de superfície e avaliação da integridade das margens do material. Muitas vezes as forças mastigatórias podem quebrar a pontinha da restauração e resultar numa região que favorece a ação bacteriana. É um material tão resistente que, com o passar dos anos, ao sofrer inúmeras alterações de umidade, sofre o que chamamos de expansão tardia. Nesse processo ele é capaz de fraturar o dente, mantendo a restauração inalterada.

    O apelo estético é grande e muitos pacientes pedem a troca desse material por resinas.

    As resinas são materiais que funcionam de maneira diferente do amálgama. Enquanto o material metálico precisa de retenção mecânica para ficar no preparo cavitário, as resinas são, literalmente, grudadas no dente. Nesse processo, a utilização de ácidos na superfície cria porosidades que vão receber um adesivo e em seguida as camadas das resinas compostas.

    As resinas compostas podem ser compactáveis, fluidas, com macro ou nano partículas, usadas em vários incrementos ou, nos casos das resinas denominadas “bulk fill”, em incrementos únicos de até 4mm de espessura.

    Geralmente são apresentadas em formas de seringas e variam de cor e de opacidade, de acordo com sua indicação. Existem resinas de dentina, de corpo, de esmalte, translúcidas e de cores variadas, inclusive específicas para dentes que sofreram processos de clareamento dental. Essa variedade de cores permitiu o desenvolvimento de técnicas de trabalho específicas para a execução de restaurações extremamente estéticas, onde o dentista consegue mimetizar a estrutura dental sadia. A evolução desses materiais se percebe, também, na capacidade de polimento superficial do material e consequente diminuição da pigmentação de superfície. O acréscimo de partículas de carga menores (nano partículas) permite que o material seja usado em restaurações anteriores e posteriores, conferindo a resistência necessária durante a mastigação.

    Além dos benefícios estéticos, as resinas compostas têm como vantagem a não necessidade de desgaste de estrutura dental sadia para acondicionamento do material. O preparo cavitário para as resinas é conservador, quase que sempre restrito à área acometida pela lesão (cariosa ou não).

    Se é um material tão bom e revolucionário, por que a dúvida sobre a troca do metal pela restauração da cor do dente?

    O maior ponto negativo desse material é a facilidade de comprometimento das margens da restauração, em virtude das alterações de temperatura e umidade do meio bucal. O sistema adesivo, que mantém o material grudado no dente, pode ficar comprometido e, com isso, gerar micro fendas entre a restauração e o dente. Pronto! Mesmo sendo fendas minúsculas, esse fato já é suficientemente importante para o aparecimento de cárie recidivante, aquelas que dão por baixo do material restaurador, cujo diagnóstico muitas vezes passa batido no exame clínico.

    Como profissional, oriento meus pacientes quanto as diferenças desses materiais e, principalmente, em relação a longevidade da restauração. As de amálgama duram anos, enquanto as de resina, mesmo com toda a evolução tecnológica, poucos anos, necessitando de revisões frequentes tanto por meio de sondagem das margens, como exames radiológicos periódicos.

    Essa troca não é para todos os pacientes. Somente os que mantém boa higiene bucal são aptos para o procedimento. Pacientes nos quais não conseguimos controlar problemas periodontais nem a correta higienização dos dentes não são candidatos à troca.

    E, mesmo se o paciente (aquele tem condições de fazer a troca) insistir depois de todos esses esclarecimentos, peço que assine um termo se responsabilizando por qualquer problema resultante desse procedimento. Os que não têm condições de saúde para o procedimento, eu não faço.

    Eu, Juliana, como paciente, se tivesse alguma restauração de amálgama, não arriscaria mexer! Aquela velha história de “time que está ganhando...” sabe?

    Ao profissional cabe o bom senso! Ao paciente, a avaliação da real necessidade da troca.

    Esclareça ao paciente e faça o que for certo!

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